Relembramos o nosso artigo publicado em abril de 2011:

Na sequência da notícia publicada no passado dia 19 em jornais de (quase) todo o mundo e difundida em sites e blogs, sobre o processo movido por um cidadão belga (natural do Congo) contra a entidade detentora dos direitos de imagem de Tintin no Congo, a Moulinsart SA e a editora Casterman, alegando o referido cidadão que  na obra em causa existem referências racistas, queremos deixar aos nossos leitores um pouco mais de informação que ajude a compreender os factos que estão na base deste processo.

Estamos a 29 de Maio de 1930, três semanas após Tintim e Milou terem regressado do país dos sovietes. O companheiro de Tintim propõe ao jovem jornalista um destino para a próxima viagem: “Que dirias de uma viagem ao Congo? […] podíamos fazer explorações científicas, caçar feras, atravessar rios, caminhar nas profundezas da floresta... Não pensas que daria uma reportagem sensacional?”(in “Milou a une idée”, Le Petit Vingtème, 1930-05-29). Esta sugestão de Milou, publicada na revista, mostra quais eram os planos do padre Norbert Wallez, director do Le Petit Vingtème. É este padre conservador belga que define o rumo das histórias de Tintim. Para Hergé, no entanto, fazia mais sentido uma viagem à América, dada a simpatia que nutria pelos índios desde a sua passagem pelos escuteiros e também pelos filmes que vira na sua infância.

Face ao parco entusiasmo que sentia em levar Tintim ao Congo, o autor pouco se documentou para produzir a história, limitando-se aos relatos de jornalistas da revista e a uma ida ao Museu do Congo em Tervuren (Bélgica). Nestas circustâncias, o jovem desenhador, que não gostava das gabarolices dos colonos que regressavam do Congo, constroi uma visão paternalista dos negros, que considera crianças grandes. E é desta forma que retrata os congoleses. Daqui resulta, parece-me, que Tintim no Congo é das histórias mais infantis da série, fruto de uma narrativa simples, pouco documentada e com textos muito explicativos.

Hergé, na altura em que começou a desenhar esta aventura de Tintim, com 23 anos, não passava de um mero funcionário de uma revista católica para jovens e crianças, e que tinha como gestor uma figura singular, muito mais ligada a temas políticos do que religiosos, o padre Wallez. Numa entrevista a Henry Roane (1974), dizia Hergé: “Sou muito permeável, muito influenciável, e por isso um excelente médium…Todos os meus álbuns têm a marca da época em que foram desenhados”. É um facto, por exemplo, que na Exposição Colonial de Paris, em 1930, os visitantes eram aos milhões, contrastando com os poucos que visitavam a exposição anti-colonial patrocinada pelos surrealistas franceses, na mesma altura.

Contudo, apesar da ingenuidade presente nas primeiras obras de Hergé e da sua permeabilidade às correntes da época, é clara a presença, em Tintim na América, da crítica à sociedade norte americana e à própria história da construção dos Estados Unidos, com base na exploração dos negros e dos índios. Antes da sua partida para o Novo Mundo, Tintim confidenciava a Milou (Le Petit Vingtème, 1931-08-20):

"Os negros dos Estados Unidos são descendentes de antigos escravos. Por isso os brancos acham-se superiores. O que é falso, porque o escravo é sempre de longe mais digno do que o seu mestre absoluto.

Todo o individuo que tenha nas veias uma gota de sangue negro é considerado um ser inferior. Tem de viver num bairro separado. Não se pode casar com uma branca. Existem escolas, universidades e igrejas especiais para os negros. E, muitas vezes, nas províncias do sul um preto é linchado. O infeliz que tenha roubado, cometido um crime ou que seja simplesmente suspeito é morto pelos brancos em fúria. E a justiça fecha os olhos e deixa massacrar o homem de cor."

Referências: Hergé filho de Tintim; Peeters, Benoît; Verbo (Outubro 2007)

Para finalizar e depois de ler alguns artigos sobre o tema, sugiro a leitura de um deles, da autoria de Manuel António Pina, publicado no Jornal de Noticias de 19 de abril de 2011 com o título: "Tintin nas Galés"

"Parece que Tintin, meu amigo de infância, vai ser julgado num tribunal belga por um alegado crime de "racismo" praticado em 1931 com a publicação das suas aventuras no Congo, narradas e desenhadas por um tal George Prosper Remi, a.k.a Hergè. Acusa-o, apoiado pelas ruidosas tropas do politicamente correcto, um tal Bienvenu Mbutu Mondondo, nascido 40 anos depois de "Tintin no Congo" ser publicado, que acha a obra "atentatória da sua imagem" porque, nela, "os congoleses" (e não as personagens do livro) são apresentados como "preguiçosos" e "estúpidos". Ora ele é congolês, portanto... Exige, por isso, que a venda do livro seja condicionada (a sua primeira exigência foi a proibição pura e simples, mas entretanto terá ouvido falar de "liberdade de expressão e concluído que talvez estivesse a ter mais olhos que barriga). A seguir virá algum grego "ofendido" pela imagem de Rastapopoulos, algum oficial da Marinha pela imagem de bêbedo do Capitão Haddock , alguma cantora lírica pela imagem da Castafiore, algum vendedor de seguros pela imagem de Séraphin Lampion, algum polícia pela imagem de Dupond e Dupont, algum "gangster" pela imagem dos "gangsters" em "Tintin na América"... Seguir-se-á Astérix (há-de aparecer algum romano a sentir-se "ofendido") e, por um motivo ou por outro, toda a literatura e arte. Finalmente, como previu Heine, depois dos livros, chegará de novo o momento de se queimarem homens."

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